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O mundo perdido da contratação por PJ

Uma empresa com 200 metros quadrados que, dentro dela, cabem mais 35 empresas. Não só Galvão Bueno diria que a física não permite. Provavelmente, Einstein também diria. Mas, como os próprios publicitários da Vila Olímpia costumam dizer, tudo é possível na publicidade.

Sem me aprofundar (no meu caso, me afogar) em minúcias jurídicas e trabalhistas, temos uma norma legislativa chamada CLT. Essa coisa ajuda a garantir os direitos mínimos dos trabalhadores, que é comer, se locomover, ter um plano de saúde e não se foder caso aconteça algum acidente, a empresa feche, te mandem embora, e aquilo tudo que sua tia perua costuma resumir com: “empregado hoje em dia é cheio de direito”. Você pode receber R$800,00/mês ou R$25.000,00/mês que vai conseguir sobreviver, já que, tirando os impostos (dos quais ninguém está livre), o que sobra na sua conta é seu. Toda empresa deve registrar seus funcionários fixos dessa forma.

Acontece que o mundo da publicidade é um daqueles que geram fantasias. O que esperar de uma agência que, ao invés de contratar mais pessoal pra atenuar o stress dos colaboradores, emperequeta todos os ambientes com bichinhos descolados, video-game, maquininha de capuccino e tudo que é mais de viadagem pra que a firma se pareça o menos possível com uma firma e lembre sua casa, pra que você não tenha a audácia de achar ruim caso tenha que ficar lá, trabalhando 10, 12 horas por dia, por meses?

Daí o cara aceita trabalhar no tal regime PJ, porque né. Ele gastará de R$600,00 a R$1200,00 pra abrir empresa e ainda terá que se foder completamente com burocracia, que tem seu ápice quando pede-se um número de matrícula de IPTU, que as imobiliárias se negam a fornecer, com medo de que surja uma empresa num imóvel residencial.

Independente do salário, se verá obrigado a almoçar em restaurante. Pelas bandas dessas agências, não se come por menos de R$15,00. Tem quem gaste mais de R$700/mês com comida ruim. E ainda tem os lanches, cafés com os colegas na cafeteria descolada. Contratará um plano de saúde, certo? E se ferrará gastando com ônibus/metrô ou pagando estacionamento pro seu carro (pelo menos R$180,00/mês) e combustível.

Tudo isso pra trabalhar numa agência que fará questão de que o cara esteja religiosamente no mesmo horário abrindo seu email e vestindo a camisa da empresa, se esforçando para superar as metas, tratando os projetos como se fossem verdadeiros filhos e que não aceite propostas melhores, porque isso é falta de comprometimento.

Só que todos os méritos não irão pra ele, aliás, pra sua empresinha aí. Seu nome, provavelmente, não será citado num prêmio, porque ele não é um dos sócios, é só um funcionário. No primeiro momento em que o dono notar que sua agência, naquele mês, ao invés de lhe render uma enorme fortuna, vai render apenas uma fortuna boazinha, esquecerá do comprometimento e regularidade tão pedidos e o mandará embora.

Ele é PJ, não vai receber nenhuma grana, vai ter que brigar com o RH pra cobrar todos os sábados e domingos que trabalhou, como se estivesse suplicando por um favor da empresa, não terá coragem de citar as horas extras que trabalhou quase diariamente e, se não quiser continuar pagando R$150 ou R$180 mensalmente pro seu contador, vai gastar R$800,00 pra encerrar seu CNPJ.

Só que, até lá, já terá aceito outro emprego semelhante, por motivos óbvios. E nem pensará em entrar na justiça, mostrando emails com cobranças de frequência e pontualidade, mesmo quando teve o pedido de trabalhar de casa naquela semana negado, nem outras tantas provas de que ele era, sim, de fato, um funcionário fixo, pra não fechar portas na alta social media.

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Deixe uma mensagem! 26 reactions

  1. parei no “Galvão Bueno”. abs

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    jeff
    • Boa jeff

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      Tom
  2. matou a pau Danilo.

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  3. Esse Jeff aí deve ser dono de agência….

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    Marcelo
  4. Trabalhei como CLT, PJ, aquele sistema misto (pior opção) e agora trabalho sem qualquer vínculo com a empresa. É o que você disse, linha por linha, em todos os casos, mesmo mudando de área.

    Gostaria muito que se fizesse uma varredura encontrando os PJ e transformando todos em CLT. Empresas iriam falir ou comprar menos máquinas de cappuchino?

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  5. Se essas coisas acontecessem só no “mundo da publicidade”, o remédio seria apenas mudar de ramo.Mas que pena que o mundo não é assim…

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  6. O problema é que brasileiro em geral esquece que não existe almoço grátis. Ou, ainda, segurança grátis. CLT é segurança. Segurança de que você terá grana para o almoço, para o transporte, para tirar 30 dias de férias por ano, para ter uma grana em caixa no dia que for demitido, etc. Mais que isso, CLT é uma compra coletiva. Quando um grupo gigante de pessoas contrata um plano de saúde, consegue-se um preço bem mais barato.

    Isso vem assim de graça? Não. Quem paga isso é o patrão? Não, nunca foi. Para garantir todos esses direitos, o patrão reduz seu salário à metade. E aí banca todos os seus impostos, os 8% de FGTS, vai guardando um troquinho todo mês para no final do ano te pagar um décimo-terceiro, dar férias, etc. E aí? Quem paga a CLT é o patrão ou o empregado?

    Alguém está impedindo cada PJ de fazer isso por si próprio? De juntar 1/12 de tudo que ganha todo mês para garantir 30 dias de férias todo ano? De guardar numa poupança 8% de tudo que recebe para o dia que ficar sem trabalho? De buscar uma previdência privada, que é mais cara, mas rende muito mais que o INSS? De fazer um seguro de vida para garantia contra acidentes?

    Ninguém nunca me impediu de fazer tudo isso. Talvez por isso eu tenha feito. Mas porque não gosto de rimar patrão com paizão. Aliás, detesto patrão. Tanto que há quase uma década decidi nunca mais ter um. Nem ser patrão de ninguém. Vivo do meu próprio trabalho, na saúde e na doença. Não é algo que estimule ninguém a fazer, mas, se pedem ajuda, mostro os caminhos que percorri, onde acertei, onde errei.

    Falta aos PJs se conscientizarem que não são empregados, mas parceiros, quase sócios. E exigir no mínimo o dobro do que ganha um “PF”. E partir para uma postura mais ativa, cuidar da sua própria vida, se virar, largar o mimimi. Quer trabalhar só oito horas por dia e ganhar hora extra? A oferta é bem menor que a procura, mas tem. Esforce-se e corra atrás. Ninguém, até onde eu saiba, obriga ninguém a ser PJ.

    #
    • Marlos, falou muito bem, mesmo. No meu caso, nunca admiti trabalhar demais, aceitar um ritmo de trabalho desumano e coisas do tipo. E acabei me espevitando e me encorajando a abrir minha própria agência, correr o risco etc.

      Porém, digo pelas pessoas que não têm essa disponibilidade e também (talvez principalmente) por ter agências concorrentes que conseguem fazer um preço muito baixo porque contratam PJ dessa forma meio insana aí (fora que é contra a lei, né?). Podemos discutir as leis, mas elas estão aí pra serem cumpridas.

      Abs

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    • Marlos, meus parabéns: seu argumento seria muito interessante para mim se o dia tivesse 36 horas e eu gostasse menos de ficar em casa assistindo “Turminha da Galera” do que lidar com pilhas de canhotos com data de vencimento e secretárias da Prefeitura. Você quase conseguiu.

      #
  7. o Marlos Ápyus falou tudo.
    pensamos que sempre a culpa é dos outros.
    a enchente é culpa do governo. a nota baixa é culpa do professor. sua baixa remuneração é porque está trabalhando no regime PJ.
    já trabalhei nos dois modelos. nos dois vi vantagens que me faziam mais sentido naqueles momentos. todos os modelos têm suas desvantagens também.
    recebo todos os meses uma correspondência da caixa econômica com o saldo do meu FGTS coletado numa empresa que trabalhei por 6 anos. daria pra comprar um carro. mas, quando vou ver esse dinheiro, que é supostamente meu? já deixei essa empresa há mais de 5 anos e até agora, nada… nem mesmo quando eu fiquei desempregado…
    PJ é ruim? e CLT?

    #
    LEO CARBONELL
  8. concordo com o Marlos Ápyus.
    a culpa do seu time ter perdido o jogo não foi do juiz. foi seu time que jogou pior.
    a culpa do alagamento na sua rua não é do governo. é sua que o elegeu e sua por não descartar corretamente suas butucas de cigarro.
    a culpa pela sua baixa remuneração é, tão e simplesmente, sua. não do regime pelo qual foi contratado.
    ambos os regimes têm vantagens.
    todo mês recebo uma correspondência do fgts que mostra que tenho mais do que 1 carro disponível em uma conta de uma empresa que trabalhei por mais de 5 anos, há mais de 5 anos atrás. mas, nunca pude tocar nesse dinheiro, nem mesmo quando eu fiquei desempregado por 4 meses, com filhos pra criar. ora, quando poderei usufruir dessa bolada?
    o que deve ser discutido é a ILEGALIDADE desse regime. tá todo mundo ilegal, tanto os contratantes como os contratados. agora, se juntos celebram um acordo, honrem-no.
    o único que não está errado nessa história toda é o cappuccino. se é pra ter um café de cortesia, pelo menos que seja bem tirado.

    #
    LEO CARBONELL
    • hahaha Carbonell sempre classudo, curti pra caralho seus pontos, mesmo

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  9. R$ 700 por mês com comida, q mundo cê mora manolo? To de saco cheio de publicitário reclamando pq só olha pro umbigo, qualquer profissão é assim. Sou trainee de investimentos há DOIS ANOS, trabalho 11 horas por dia, ganho uma merreca, nunca ganhei férias e to feliz, por mim faria 12 horas. Se você não tá feliz, deixa pra outro fazer com amor ok?

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    João
    • Sou sócio de uma agência, estou falando por ex-colegas. Ps se você acha que trabalhar com amor é trabalhar por 12 horas ganhando pouco. Na verdade, você é muito burro e ainda está contribuindo pra que esse tipo de relação continue.

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    • DOIS ANOS. UAU, QUANTO TEMPO, MEU AMIGO INVESTIDOR.

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  10. PJ pra mim é Pearl Jam

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    Barbara
  11. li td e não sei o que é PJ. Alguém?

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    carol
  12. O Gravz escreveu lá no blog dele e deixei o mesmo comentário. O post dele está aqui: http://www.interney.net/blogs/gravataimerengue/2012/01/31/pejotinha_fake_um_negocio_ruim_e_muito_a/

    Perguntei se eu havia falado alguma abobrinha mais acima. Eis a resposta dele (que entende do assunto melhor do que eu):

    (Gravz: Pela lógica, você está correto. Ninguém obriga, no sentido de que o empregado pode recusar. Mas aí entra um humanitarismo necessário em face da idéia de haver opções… O CARA PRECISA COMER. Não é que aparecem duas vagas, uma com e outra sem CLT, mas sim uma vaga finalmente surge e a empresa EXIGE que seja por PJ. O cara aceita. Ele tá errado? Em tese, sim, mas é compreensível. A empresa está errada? Erradíssima. Sem desculpa)

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    • Vi e adorei. Fiquei satisfeito tanto com os comentários negativos ou positivos. Repito que você disse muito bem. A propósito, estou do outro lado hoje. Sou sócio de uma agência que já conta com humildes bons cases. Vou postar em breve sobre opções que as agências, se quiserem, têm pra resolver isso, como sócios de contas específicas com trabalho majoritariamente remoto ou atitudes menos ousadas, como simplesmente negociar um salário menor com o colaborador para que tudo se regularize. Abs e obrigado!

      #
  13. Gostei da coragem de tocar no assunto.

    Que mercado de trabalho mais lazarento esse de comunicação, tanto publicidade, quanto jornalismo, do design e correlatos.

    Avisem seus entes-queridos: não façam comunicação!!!

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    Max G.
  14. No começo de 2009 fui obrigado a abrir empresa para poder trabalhar remotamente para um escritório de São Francisco. Na hora de produzir, era tratado como empregado, com horas a cumprir, com horário certo de almoço, não podia faltar. Na hora de receber eu era tratado como empresa mesmo, tinha que mandar nota 10 dias antes pra SP, arcando com Sedex/Sedex 10 pra só receber no quinto dia útil do mês. Na hora de sair fui tratado novamente como empresa, devendo inclusive. Foram 10 meses de eu implorando por contrato PJ e nem se mexiam.
    Acabei aceitando trabalhar numa agência web de um conhecido. Mesmo regiminho malandro, pois para receber o que eu pedi só podia ser assim. Era tratado como funcionariozinho e pra receber é erama desgraça, novamente não aconteceu contrato . Na hora de sair novamente eu sai no prejuízo, não recebi o último ordernado.
    Depois do trauma eu fui em outra agência, com um amigo conhecido de tempos. Prometeu mundos, benefícios. Não fez contrato e não exigia nota. Na hora de sair foi uma batalha que terminou amizade.

    Aqui em Curitiba arranjar um trabalho CLT por a quantia que tu quer é muito difícil. Sempre dão brecha para o PJ. Tudo bem, eu não importo de arcar com meus recolhimentos. Desde que eu seja realmente tratado como uma empresa, com contrato e eu decidir quando posso ou não prestar meu serviço.

    Fico entre a Cruz e a Espada: segurança da CLT ou putaria de PJ.

    #
    Julio Vedovatto
  15. moleza falar q a gente de agencia ganha bem por ser pj, nao..
    o problema é q a grande maioria ganha MAL! Ou convenhamos q quem ganha entre 2000 e 5000 consegue comprar um bem, uma CASA por ex. Nao rola!!
    Sei lá, tanta coisa errada q nao dá pra mudar da noite pro dia. quem dera.

    #
    Kelly
  16. Danilo, tu precisa voltar a andar com a Família Teletube pra escrever um post a vero memo, num tem jeito.

    #
  17. Fudido.

    #
    Ric
  18. aqui não tem máquina de capuccino… só me fodo… mimimi…

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    Silvio
  19. Estou entrando neste mundo. Já fui CLT por 6 anos, estou há quatro trabalhando sem qualquer vínculo (totalmente na irregularidade), e agora recebi uma proposta para trampar em uma agência como PJ. Sinceramente não sei o que fazer, e muito mesmo quais providências tomar para regularizar este possível novo regime. =/

    #
    Alex

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